Para esta edição piloto, convidámos Mariana Duarte, jornalista do Público, a escrever um texto situado no Porto e no tempo, em diálogo direto com o contexto.
Outros modos de fazer
para outros modos de sentir
por Mariana Duarte
Criar um festival em 2026 tem tudo para ser um gesto previsível e desinspirado.
Portugal é, hoje, um país de festivais, de pequena, média ou grande dimensão, de várias áreas artísticas, de mais ou menos cruzamentos entre estas. Um formato quase à beira da exaustão, que demasiadas vezes repete um guião pré-feito com os protagonistas do costume, que replica as mesmas lógicas das programações regulares das instituições culturais, que se vai reproduzindo a si próprio para alcançar uma longevidade cautelosa, em vez de uma permanência nutrida pela inventividade, pelo entusiasmo do inesperado, pela aceitação de que, um dia, talvez faça mais sentido acabar do que continuar.
ℳ𝓊𝓁𝒶 não vem inventar a roda, é certo, mas vem virá-la para outras direcções.
Importa olhá-la no contexto da cidade onde nasce. O Porto tem um tecido de artes performativas sólido e valioso, sobretudo na dança. Há, efectivamente, uma dinâmica de programação que não existia há uma década, uma maior pluralidade, uma diversificação (insuficiente, ainda assim) de criadores e de públicos. Falta, no entanto, um equilíbrio entre as iniciativas institucionais e as independentes, numa cidade onde o significado e a activação do “independente” têm vindo a ser manipulados, desvirtuados.
Não se trata de um desejo inconsequente de anti-poder numa era onde quase tudo é cooptado, mas de um balanço que abra espaço para confrontos construtivos em ambas as frentes e para uma complementaridade que permita brechas – porque dessas brechas podem emergir vislumbres de outras possibilidades e diálogos, formatos e encontros, respeitando e acolhendo as experiências bem e mal conseguidas, os tiros no escuro, os processos de crescimento entre pares e entre desconhecidos. É preciso tactear, delirar, inventar; não apenas cumprir. É preciso apostar em modos menos formais e estáticos de produção, curadoria e acesso à cultura.
ℳ𝓊𝓁𝒶 vem contribuir para abrir essas brechas no território dos festivais. No tempo, no espaço, nos modos de fazer e de propor convivialidades a partir das artes performativas, indo além destas – afinal, a hibridez e a contaminação são essenciais para fazer avançar a dança, o teatro e a performance, não só enquanto disciplinas, mas também enquanto áreas de acção curatorial.
Fá-lo em parceria com espaços do centro da cidade que têm ensaiado essas brechas, por vezes conseguindo, outras vezes falhando: o Sismógrafo, a Mala Voadora, o Hotelier, o Teatro de Ferro, a Rampa e o Passos Manuel. Como afirmam as idealizadoras da ℳ𝓊𝓁𝒶, a programadora e professora Cristina Planas Leitão e a coreógrafa e bailarina Luísa Saraiva, este festival-encontro “não quer crescer para se tornar outra coisa. Não pretende substituir nem representar, mas reunir e somar”. Parece-nos um bom início de conversa.
E no início da conversa da ℳ𝓊𝓁𝒶 está o corpo.
Desde logo, no conceito do projecto, a decorrer do pôr do sol até ao nascer do sol, inspirado pela liturgia solar do noroeste português, uma prática ancestral em que se organizava o tempo através do percurso do sol, do canto, da oralidade popular e de uma ideia de colectivo. Esta relação com a temporalidade tinha uma forte implicação no corpo. No corpo da força de trabalho, no corpo do lazer, no corpo do descanso, no corpo físico, espiritual e artístico; no corpo que atravessava todos estes estados. ℳ𝓊𝓁𝒶 propõe-nos fazer um intervalo na organização temporal enraizada pelo capitalismo neoliberal em torno do relógio e de rotinas com horários e marcações específicas, inclusive a fruição cultural.
Aqui tanto podemos assistir a uma performance ao início da tarde como de madrugada, participar em sessões de leitura nocturnas ou tomar um banho purificador antes do nascer do sol segundo práticas ancestrais, cortesia de Dori Nigro e Paulo Pinto em SALVALAVALMA. Ter refeições com conhecidos e desconhecidos, experimentar leituras de mapas astrais e de tarot. Outros modos de fazer para espicaçar outros modos de sentir. Outros modos de sentir para ampliar outros modos de observar. As tais brechas que é preciso adentrar.
O corpo está igualmente no centro das propostas que compõem o programa. De um modo transversal, palpita uma ideia de ritual – palavra gasta até ao tutano nas artes performativas em anos recentes, mas que aqui não é descabida. Ritual no sentido em que as peças e outras actividades apelam à imersão e concentração, à proximidade e a uma dimensão relacional, a uma cadência calibrada por um outro entendimento do tempo e do espaço. O facto de boa parte do programa acontecer durante a noite/madrugada convida a contemplar outros tipos de interpretações, imaginações, inquietações. Não é, portanto, só o corpo do performer que está envolvido; é também o do espectador.
Apesar de não haver propriamente linhas temáticas na programação, há assuntos que sobressaem e que se tocam: o medo, as relações de poder, a violência, a sensualidade, o afecto, a intuição, a memória. Tudo isso tem início, meio e fim no corpo. “Gosto de saber (…) Que a escuta é feita com o corpo todo”, escreve Piny na sinopse de liminal, performance que vai apresentar na ℳ𝓊𝓁𝒶.
Palavras certeiras que reverberam em This Resting, Patience, da coreógrafa e bailarina polaca Ewa Dziarnowska. Os turbilhões emocionais são somatizados pelo corpo, em fogo lento, num olhar para dentro negociado e intermediado constantemente com e pelo olhar exterior sobreesse corpo, projectando-se uma intimidade estranha entre performers e público, mas de ritmo afectuoso e sereno. Outro tipo de intimidade é forjado por Sepideh Khodarahmi em The Erotic Clown. Nesta lapdance para um bolo, fast and furious, a artista iraniana-sueca explora as fronteiras entre o desejo e a repulsa, o erotismo e as dinâmicas de poder, o humor e o absurdo; fricções que ganham hoje cada vez mais camadas e simbolismos.
Este deslumbramento e questionamento por aquilo que um corpo pode provocar e revelar –não se impõem interpretações ou visões, sugerem-se caminhos – vem também de uma dança em diálogo com outras disciplinas. Ana Rita Xavier, jovem artista a viver no Porto, apresenta Fruta do Acaso, uma performance experimental de cinema expandido, em que a personagem da curta-metragem homónima, também da autoria de Ana Rita, salta para palco, numa peça que parte de memórias familiares no feminino. No caso de Sancha Meca Castro – outra jovem criadora portuguesa, que trabalha nas intersecções entre dança e marionetas –, a adaptação da performance Sky Casting ao espaço do Sismógrafo será feita em conjunto com a cantora e compositora Inês Malheiro.
Há ainda momentos em que esse diálogo é suspenso. Em Casino, a coreógrafa e intérprete sueco-chilena Ofelia Jarl Ortega convoca Nina Sandino, da Nicarágua, e Jao Moon, da Colômbia, para cruzarem e descruzarem as suas memórias e repertórios de salsa, mas sem música. Uma abordagem que causa desconfiança ao início, mas que se vai entranhando à medida que nos permitimos, enquanto espectadores, descobrir como é que uma dança conectada umbilicalmente à música consegue respirar sem ela.
Idiossincrasias são bem-vindas na ℳ𝓊𝓁𝒶, e prova disso é Ssassin's Creed (Lady says Stop), da alemã Liina Magnea, que chega até nós ao piano com uma pistola presa ao cinto das calças. Entre a coreografia, o teatro, a música e uma dramaturgia de sensores cinematográficos, Magnea mesmeriza com uma performance neurótica, perturbadora, assustadoramente lúcida e actual no modo como endereça, sem recorrer a discursos óbvios, traumas geracionais, processos sociais violentos e a perversidade do comportamento humano em estruturas de poder.
Eis ℳ𝓊𝓁𝒶, ou parte dela. Criar um festival em 2026 ainda pode ser um gesto inspirado e inspirador.

Para esta edição piloto, convidámos Mariana Duarte, jornalista do Público, a escrever um texto situado no Porto e no tempo, em diálogo direto com o contexto.
Outros modos de fazer
para outros modos de sentir
por Mariana Duarte
Criar um festival em 2026 tem tudo para ser um gesto previsível e desinspirado.
Portugal é, hoje, um país de festivais, de pequena, média ou grande dimensão, de várias áreas artísticas, de mais ou menos cruzamentos entre estas. Um formato quase à beira da exaustão, que demasiadas vezes repete um guião pré-feito com os protagonistas do costume, que replica as mesmas lógicas das programações regulares das instituições culturais, que se vai reproduzindo a si próprio para alcançar uma longevidade cautelosa, em vez de uma permanência nutrida pela inventividade, pelo entusiasmo do inesperado, pela aceitação de que, um dia, talvez faça mais sentido acabar do que continuar.
ℳ𝓊𝓁𝒶 não vem inventar a roda, é certo, mas vem virá-la para outras direcções.
Importa olhá-la no contexto da cidade onde nasce. O Porto tem um tecido de artes performativas sólido e valioso, sobretudo na dança. Há, efectivamente, uma dinâmica de programação que não existia há uma década, uma maior pluralidade, uma diversificação (insuficiente, ainda assim) de criadores e de públicos. Falta, no entanto, um equilíbrio entre as iniciativas institucionais e as independentes, numa cidade onde o significado e a activação do “independente” têm vindo a ser manipulados, desvirtuados.
Não se trata de um desejo inconsequente de anti-poder numa era onde quase tudo é cooptado, mas de um balanço que abra espaço para confrontos construtivos em ambas as frentes e para uma complementaridade que permita brechas – porque dessas brechas podem emergir vislumbres de outras possibilidades e diálogos, formatos e encontros, respeitando e acolhendo as experiências bem e mal conseguidas, os tiros no escuro, os processos de crescimento entre pares e entre desconhecidos. É preciso tactear, delirar, inventar; não apenas cumprir. É preciso apostar em modos menos formais e estáticos de produção, curadoria e acesso à cultura.
ℳ𝓊𝓁𝒶 vem contribuir para abrir essas brechas no território dos festivais. No tempo, no espaço, nos modos de fazer e de propor convivialidades a partir das artes performativas, indo além destas – afinal, a hibridez e a contaminação são essenciais para fazer avançar a dança, o teatro e a performance, não só enquanto disciplinas, mas também enquanto áreas de acção curatorial.
Fá-lo em parceria com espaços do centro da cidade que têm ensaiado essas brechas, por vezes conseguindo, outras vezes falhando: o Sismógrafo, a Mala Voadora, o Hotelier, o Teatro de Ferro, a Rampa e o Passos Manuel. Como afirmam as idealizadoras da ℳ𝓊𝓁𝒶, a programadora Cristina Planas Leitão e a coreógrafa e bailarina Luísa Saraiva, este festival-encontro “não quer crescer para se tornar outra coisa. Não pretende substituir nem representar, mas reunir e somar”. Parece-nos um bom início de conversa.
E no início da conversa da ℳ𝓊𝓁𝒶 está o corpo.
Desde logo, no conceito do projecto, a decorrer do pôr do sol até ao nascer do sol, inspirado pela liturgia solar do noroeste português, uma prática ancestral em que se organizava o tempo através do percurso do sol, do canto, da oralidade popular e de uma ideia de colectivo. Esta relação com a temporalidade tinha uma forte implicação no corpo. No corpo da força de trabalho, no corpo do lazer, no corpo do descanso, no corpo físico, espiritual e artístico; no corpo que atravessava todos estes estados. ℳ𝓊𝓁𝒶 propõe-nos fazer um intervalo na organização temporal enraizada pelo capitalismo neoliberal em torno do relógio e de rotinas com horários e marcações específicas, inclusive a fruição cultural.
Aqui tanto podemos assistir a uma performance ao início da tarde como de madrugada, participar em sessões de leitura nocturnas ou tomar um banho purificador antes do nascer do sol segundo práticas ancestrais, cortesia de Dori Nigro e Paulo Pinto em SALVALAVALMA. Ter refeições com conhecidos e desconhecidos, experimentar leituras de mapas astrais e de tarot. Outros modos de fazer para espicaçar outros modos de sentir. Outros modos de sentir para ampliar outros modos de observar. As tais brechas que é preciso adentrar.
O corpo está igualmente no centro das propostas que compõem o programa. De um modo transversal, palpita uma ideia de ritual – palavra gasta até a tutano nas artes performativas em anos recentes, mas que aqui não é descabida. Ritual no sentido em que as peças e outras actividades apelam à imersão e concentração, à proximidade e a uma dimensão relacional, a uma cadência calibrada por um outro entendimento do tempo e do espaço. O facto de boa parte do programa acontecer durante a noite/madrugada convida a contemplar outros tipos de interpretações, imaginações, inquietações. Não é, portanto, só o corpo do performer que está envolvido; é também o do espectador.
Apesar de não haver propriamente linhas temáticas na programação, há assuntos que sobressaem e que se tocam: o medo, as relações de poder, a violência, a sensualidade, o afecto, a intuição, a memória. Tudo isso tem início, meio e fim no corpo. “Gosto de saber (…) Que a escuta é feita com o corpo todo”, escreve Piny na sinopse de liminal, performance que vai apresentar na ℳ𝓊𝓁𝒶.
Palavras certeiras que reverberam em This Resting, Patience, da coreógrafa e bailarina polaca Ewa Dziarnowska. Os turbilhões emocionais são somatizados pelo corpo, em fogo lento, num olhar para dentro negociado e intermediado constantemente com e pelo olhar exterior sobre esse corpo, projectando-se uma intimidade estranha entre performers e público, mas de ritmo afectuoso e sereno. Outro tipo de intimidade é forjado por Sepideh Khodarahmi em The Erotic Clown. Nesta lapdance para um bolo, fast and furious, a artista iraniana-sueca explora as fronteiras entre o desejo e a repulsa, o erotismo e as dinâmicas de poder, o humor e o absurdo; fricções que ganham hoje cada vez mais camadas e simbolismos.
Este deslumbramento e questionamento por aquilo que um corpo pode provocar e revelar – não se impõem interpretações ou visões, sugerem-se caminhos – vem também de uma dança em diálogo com outras disciplinas. Ana Rita Xavier, jovem artista a viver no Porto, apresenta Fruta do Acaso, uma performance experimental de cinema expandido, em que a personagem da curta-metragem homónima, também da autoria de Ana Rita, salta para palco, numa peça que parte de memórias familiares no feminino. No caso de Sancha Meca Castro – outra jovem criadora portuguesa, que trabalha nas intersecções entre dança e marionetas –, a adaptação da performance Sky Casting ao espaço do Sismógrafo será feita em conjunto com a cantora e compositora Inês Malheiro.
Há ainda momentos em que esse diálogo é suspenso. Em Casino, a coreógrafa e intérprete sueco-chilena Ofelia Jarl Ortega convoca Nina Sandino, da Nicarágua, e Jao Moon, da Colômbia, para cruzarem e descruzarem as suas memórias e repertórios de salsa, mas sem música. Uma abordagem que causa desconfiança ao início, mas que se vai entranhando à medida que nos permitimos, enquanto espectadores, descobrir como é que uma dança conectada umbilicalmente à música consegue respirar sem ela.
Idiossincrasias são bem-vindas na ℳ𝓊𝓁𝒶, e prova disso é Ssassin's Creed (Lady says Stop), da alemã Liina Magnea, que chega até nós ao piano com uma pistola presa ao cinto das calças. Entre a coreografia, o teatro, a música e uma dramaturgia de sensores cinematográficos, Magnea mesmeriza com uma performance neurótica, perturbadora, assustadoramente lúcida e actual no modo como endereça, sem recorrer a discursos óbvios, traumas geracionais, processos sociais violentos e a perversidade do comportamento humano em estruturas de poder.
Eis ℳ𝓊𝓁𝒶, ou parte dela. Criar um festival em 2026 ainda pode ser um gesto inspirado e inspirador.
