

ℳ𝓊𝓁𝒶 nasce como um gesto político independente que afirma a importância dos espaços, práticas e comunidades artísticas independentes no Porto como infraestruturas vitais de pensamento crítico, experimentação artística e construção de comunidade, escolhendo o encontro como forma de resistência. Esta edição piloto acontece em torno do equinócio da primavera, um momento de equilíbrio entre o dia e a noite, luz e sombra, assumido como forma consciente de marcar a passagem do tempo definir o encontro e a convivência como valores centrais da prática artística. Honra-se tudo o que se prepara e se alinha durante a noite.
ℳ𝓊𝓁𝒶 acontece entre o pôr do sol e o nascer do sol, reivindicando a noite como espaço de preparação, de reparação, de sonho, de lazer, de conspiração e de transformação. Celebrar o equinócio é tomá-lo como gesto de orientação: afirmar a predileção por lugares de transição e movimento e o direito de definir os nossos próprios ritmos, de escolher como ocupamos os espaços, devolvendo centralidade ao corpo e à dança.
Nos romanceiros e cancioneiros populares portugueses é clara a influência dos marcos da passagem do tempo - estações do ano, ciclos agrícolas e rituais religiosos - na natureza, origem e performatividade das diferentes canções e poemas. As manifestações artísticas populares estão intrinsecamente enraizadas na organização da vida comunal. A fixação das horas tem na sua raiz uma prática religiosa de apropriação dos rituais pagãos - ao cooptar rituais agrícolas e de comunhão com a natureza às orações canónicas e monásticas. Mas, no noroeste português, esta prática sempre se manteve ligada a temas da cultura popular, geralmente associadas a romances de tradição oral. A atenção ao tempo encontra eco em certas tradições populares portuguesas, nomeadamente na orientação para uma liturgia solar na organização do dia de trabalho, onde os ciclos naturais, estações do ano, ciclos agrícolas e rituais religiosos, moldaram a função e a performatividade de canções de trabalho na tradição oral. No noroeste português, a fixação de horas para o canto colectivo, que pontuavam o dia de trabalho agrícola, revela a relação íntima entre prática artística, organização da vida comunal e comunhão com a natureza. ℳ𝓊𝓁𝒶 inscreve-se nessa linhagem: uma prática contemporânea que reconhece o passado não como nostalgia, mas como ferramenta para imaginar outros modos de estar juntos, agora.
A independência não é aqui um adjetivo, mas uma condição essencial para o desenvolvimento vivo de uma cidade, onde diferentes temporalidades, corpos e práticas podem coexistir e transformar-se. São estes espaços e gestos que funcionam como zonas de respiração, permitindo testar outras formas de encontro, de criação e de relação com o público, fora das lógicas de representação formal, procura-se manter uma cidade porosa, sensível e em constante transformação. Assumimos a autonomia como prática concreta e partilhada.
ℳ𝓊𝓁𝒶 é um fim de semana–festival–encontro com foco na dança e nas suas linguagens híbridas, atravessando leituras contínuas, astrais, oraculares e temporais. Entrelaçando espaços e pessoas, afirma a convivialidade como prática artística e política. As artes performativas são aqui entendidas como modos de resistir à abstração e de produzir presença. Recusamos separações rígidas entre artistas e público. ℳ𝓊𝓁𝒶 existe no entre, como corpo indisciplinado, como espaço de fricção e atravessamento. Não celebramos um começo inocente, mas um recomeço consciente: um gesto de organização informal, imaginação coletiva e permanência em relação. ℳ𝓊𝓁𝒶 não quer crescer para se tornar outra coisa. Não pretende substituir nem representar, mas reunir e somar. Quer enraizar e manter vivo um ecossistema essencial para uma cidade culturalmente ativa e relevante.
Ao apostar em formatos híbridos, como zonas de contaminação entre disciplinas, linguagens e modos de fazer, ℳ𝓊𝓁𝒶 defende uma visão artística e curatorial que entende a evolução das artes performativas como um processo aberto, sensível e necessariamente indisciplinado. Acreditamos que a experiência artística não se esgota em modelos explicativos ou pedagógicos cada vez mais dominantes, que tendem a reduzir a complexidade e a pluralidade da experiência do público. Pelo contrário, interessa-nos preservar o espaço do indizível, da ambiguidade e do afeto. ℳ𝓊𝓁𝒶 insiste também na urgência de modos menos formais e menos burocráticos de produção e acesso à cultura, privilegiando relações diretas, economias do cuidado e formatos baseados na confiança, na presença e no tempo partilhado.
ℳ𝓊𝓁𝒶 carrega uma simbologia que atravessa diversas tradições. Etimologicamente, remete à ideia de origem e raiz. A mula, animal híbrido e de carga, evoca resiliência, força e resistência, transportando histórias e memórias através do tempo e do espaço. Celebrada quando dia e noite têm praticamente a mesma duração, ℳ𝓊𝓁𝒶 marca um início em torno do astro central, um convite a criar um espaço onde o corpo em movimento está no centro.
Cristina Planas Leitão
& Luísa Saraiva




ℳ𝓊𝓁𝒶 nasce como um gesto político independente que afirma a importância dos espaços, práticas e comunidades artísticas independentes no Porto como infraestruturas vitais de pensamento crítico, experimentação artística e construção de comunidade, escolhendo o encontro como forma de resistência. Esta edição piloto acontece em torno do equinócio da primavera, um momento de equilíbrio entre o dia e a noite, luz e sombra, assumido como forma consciente de marcar a passagem do tempo definir o encontro e a convivência como valores centrais da prática artística. Honra-se tudo o que se prepara e se alinha durante a noite.
ℳ𝓊𝓁𝒶 acontece entre o pôr do sol e o nascer do sol, reivindicando a noite como espaço de preparação, de reparação, de sonho, de lazer, de conspiração e de transformação. Celebrar o equinócio é tomá-lo como gesto de orientação: afirmar a predileção por lugares de transição e movimento e o direito de definir os nossos próprios ritmos, de escolher como ocupamos os espaços, devolvendo centralidade ao corpo e à dança.
Nos romanceiros e cancioneiros populares portugueses é clara a influência dos marcos da passagem do tempo - estações do ano, ciclos agrícolas e rituais religiosos - na natureza, origem e performatividade das diferentes canções e poemas. As manifestações artísticas populares estão intrinsecamente enraizadas na organização da vida comunal. A fixação das horas tem na sua raiz uma prática religiosa de apropriação dos rituais pagãos - ao cooptar rituais agrícolas e de comunhão com a natureza às orações canónicas e monásticas. Mas, no noroeste português, esta prática sempre se manteve ligada a temas da cultura popular, geralmente associadas a romances de tradição oral. A atenção ao tempo encontra eco em certas tradições populares portuguesas, nomeadamente na orientação para uma liturgia solar na organização do dia de trabalho, onde os ciclos naturais, estações do ano, ciclos agrícolas e rituais religiosos, moldaram a função e a performatividade de canções de trabalho na tradição oral. No noroeste português, a fixação de horas para o canto colectivo, que pontuavam o dia de trabalho agrícola, revela a relação íntima entre prática artística, organização da vida comunal e comunhão com a natureza. ℳ𝓊𝓁𝒶 inscreve-se nessa linhagem: uma prática contemporânea que reconhece o passado não como nostalgia, mas como ferramenta para imaginar outros modos de estar juntos, agora.
A independência não é aqui um adjetivo, mas uma condição essencial para o desenvolvimento vivo de uma cidade, onde diferentes temporalidades, corpos e práticas podem coexistir e transformar-se. São estes espaços e gestos que funcionam como zonas de respiração, permitindo testar outras formas de encontro, de criação e de relação com o público, fora das lógicas de representação formal, procura-se manter uma cidade porosa, sensível e em constante transformação. Assumimos a autonomia como prática concreta e partilhada.
ℳ𝓊𝓁𝒶 é um fim de semana–festival–encontro com foco na dança e nas suas linguagens híbridas, atravessando leituras contínuas, astrais, oraculares e temporais. Entrelaçando espaços e pessoas, afirma a convivialidade como prática artística e política. As artes performativas são aqui entendidas como modos de resistir à abstração e de produzir presença. Recusamos separações rígidas entre artistas e público. ℳ𝓊𝓁𝒶 existe no entre, como corpo indisciplinado, como espaço de fricção e atravessamento. Não celebramos um começo inocente, mas um recomeço consciente: um gesto de organização informal, imaginação coletiva e permanência em relação. ℳ𝓊𝓁𝒶 não quer crescer para se tornar outra coisa. Não pretende substituir nem representar, mas reunir e somar. Quer enraizar e manter vivo um ecossistema essencial para uma cidade culturalmente ativa e relevante.
Ao apostar em formatos híbridos, como zonas de contaminação entre disciplinas, linguagens e modos de fazer, ℳ𝓊𝓁𝒶 defende uma visão artística e curatorial que entende a evolução das artes performativas como um processo aberto, sensível e necessariamente indisciplinado. Acreditamos que a experiência artística não se esgota em modelos explicativos ou pedagógicos cada vez mais dominantes, que tendem a reduzir a complexidade e a pluralidade da experiência do público. Pelo contrário, interessa-nos preservar o espaço do indizível, da ambiguidade e do afeto. ℳ𝓊𝓁𝒶 insiste também na urgência de modos menos formais e menos burocráticos de produção e acesso à cultura, privilegiando relações diretas, economias do cuidado e formatos baseados na confiança, na presença e no tempo partilhado.
ℳ𝓊𝓁𝒶 carrega uma simbologia que atravessa diversas tradições. Etimologicamente, remete à ideia de origem e raiz. A mula, animal híbrido e de carga, evoca resiliência, força e resistência, transportando histórias e memórias através do tempo e do espaço. Celebrada quando dia e noite têm praticamente a mesma duração, ℳ𝓊𝓁𝒶 marca um início em torno do astro central, um convite a criar um espaço onde o corpo em movimento está no centro.
Cristina Planas Leitão
& Luísa Saraiva

